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O amor acontece

por batidasfotograficas, em 24.05.12

O amor acontece. Numa quinta, por exemplo,num domingo 

de super lua, depois do silêncio da manhã; começa em cafés

ás 10h da manhã; de repente, no meio de uma neblina na acidez da

aurora, depois de uma noite votada à alegria póstuma, que não veio; 

o amor acontece no desenlace das mãos, como tentáculos saciados,

e elas movimentam-se no escuro como dois polvos de solidão; como se

as mãos soubessem antes que o amor acontece-se; na insónia dos

braços luminosos do relógio; o amor acontece nas geladarias diante

do colorido dos gelados de figo e amêndoa; e no olhar do cliente

errante que passou pelo café; às vezes o amor acontece nos braços

torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres;

mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia;

no esvoaçar diferente de um filhote que caiu do ninho;

no cantar aflito da Mãe; nas tanjerineiras,nas oliveiras,nos corrimões

e nas sílabas do canto; quando um mocho se habitua á estaca

empoeirada de pólen, onde o amor pode ser outra coisa,

o amor pode acontecer; na compulsão da simplicidade simplesmente;

no sábado, depois de três goles de vinho à volta das pipas;

na semente tantas vezes semeada, às vezes 

vingada por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos

entre o pólen e o gineceu de duas flores; numquarto refrigerado, forrado

madeira, cheio de brilho, onde há mais encanto que desejo; e o amor

acontece na poeira que as flores vertem, caindo imperceptível no beijo 

de ir e vir; no autocarro, ida e volta de nada para nada; em cavernas 

de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acontece;

no inferno o amor não acontece; no fogo do pinhal o amor dissolve-se;

em Coimbra o amor pode virar pó; no Mondego, frivolidade; no

Sobral, tristeza; em Angola, dinheiro;

uma carta que chegou depois, o amor acontece;
 uma carta que chegou antes, e o amor acontece; na controlada
 fantasia do libido; às vezes acontece na mesma música que começou
, com o mesmo brinde, diante dos mesmos chilreios; e muitas vezes 
acontece em ouro e diamante, nos meus Pais com idade
avançada dispersando entre as estrelas; acontece nas encruzilhadas
 de Coimbra, Angola, Algarve; no coração que se dilata e quebra, 
e o cardiologista Ricardo sentencia o mixoma; 
na equipa imprestável para com o amor da profissão; e acontece
 nos corredores, tocando na porta certa, até se desfazer na sala fresca e 
iluminada;e acontece de pois que vi as cores dos uniformes que veste o 
mundo dos profissionais; na janela que se abre, na janela que se fecha;
 às vezes o amor acontece e é simplesmente esquecido como um 
espelhode bolsa, que continua reflectindo sem razão até que alguém, 
humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acontece como se fora
 melhor nunca ter existido; mas pode acontecer com doçura e esperança;
 uma palavra, muda ou articula, e acontece o amor; na verdade;
 uma bebida; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da
 primavera; noabuso do verão; no castanho dourado do outono
no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acontece; 
a qualquer hora o amor acontece; por qualquer motivo o amor acontece; 
para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acontece. 
Texto escrito por mim. É atravessado pelo gosto de escrever com
 efeitos baseado em fatos verídicos, unicamente com a minha 
sabedoria. Em todo eu sou o meu objeto de representação ao 
mesmo tempo produto e produtor, num circulo com a natureza.
Publicado em primeira mão no blogue da Eli:
http://escreverumlivro.blogspot.pt/2012/05/o-amor-acontece-4.html 

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publicado às 16:10


1 comentário

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De Marta M a 02.06.2012 às 22:44

E o amor acontece e pulsa no nosso coração ao lê-lo...
Especialmente bonito e verdadeiro este seu texto.
O amor é mesmo uma extensão do imanismo ;)
Bom fim de semana
Marta M

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